IMAGE BY Nadia Abu Shaban

Menino de dez anos é morto em suposto confronto com policiais

Criança some após ser deixada pelos pais em floresta como castigo

 

Não me pergunto o porquê, muito menos de quem é a culpa, mas diante destes fatos olhei para meu filho de 6 anos de idade e pensei: “estou fazendo a coisa certa?”

Compreendo que as crianças e suas experiências não se resumem a teorias psicológicas, depende de um olhar dinâmico e evolutivo, nossa compreensão das coisas da vida muda, assim como mudou ao longo da história de toda humanidade.

Em diferentes épocas as crianças foram tratadas e educadas de diferentes maneiras, e a velocidade em que as mudanças ocorrem, minha compreensão, deve seguir o mesmo fluxo e fluidez com que as informações navegam nas redes sociais.

Entendo a infância  como um período da vida em que meu filho está formando sua identidade, com grande contribuição do grupo social com o qual está interagindo, portanto devo ser empático ao que é ser criança à luz da construção social.

Meu filho está se preparando para continuar a construção da sociedade futura, os valores que estarão  presentes  são os mesmos que hoje estão em pauta em nossa relação diária, e que ele já leva à escola e em qualquer lugar que frequenta. “A infância é a garantia de nossa sobrevivência enquanto espécie e quanto mais humanizada for, mas nos garantiremos como humanos”.

A criança deve ter todas as condições básicas e necessárias para viver seu tempo de criança, como criança, e não deve haver crianças excluídas dessa condição. A infância submetida à agressão física, ao trabalho para subsistência, à erotização, à prostituição, ao tráfico de drogas, a conflitos bélicos, a pobreza extrema e ao desamparo são alguns das formas de destruirmos a humanidade futura.

Não posso ficar esperando o governo ou a sociedade mudar isso, mas é compromisso meu, enquanto cidadão, tratar como humano cada criança com a qual eu tenha contato direto e indireto.

Mas não paro por ai, a desqualificação da infância também está presente no discurso, a maneira como alguns comportamentos infantis são criticados: “não seja criança”, “você está sendo infantil”, “ao agir assim você parece uma criança, um bebezinho”.  Assim, sem perceber, está sendo depositado sobre a criança o estigma de incapaz, dependente, inconsequente e não habilitada a emitir opiniões e ainda sua percepção seu afeto desacreditados.

O desenvolvimento emocional e social saudável é fruto de um conjunto de aprendizagens informais (casa, grupo social) e formais (escola), a oferta de afetos positivos é indispensável para a formação da autoestima e do auto conceito saudável, e contribui para o desenvolvimento da capacidade de reconhecimento do outro.

Hoje em dia, cada vez mais cedo as crianças participam da vida social de suas famílias e com as transformações sociais, a facilidade de obter informações e a proliferação das redes sociais o acesso ao mundo do adulto é mais fácil e rápido. Consequência é que temos crianças que incrementam sua individualidade cada vez mais cedo e enfrentam a autoridade do adulto.

Em meio a tantas mudanças tecnológicas, educacionais, culturais e políticas que provocam pressões na formação da subjetividade infantil, indago como meu filho se percebe e a quais suportes tem recorrido para desenvolver sua maneira de se adaptar a essas mudanças.

É meu dever  valoriza-lo como criança, respeitando-o como indivíduo capaz e sujeito de sua própria realidade. Esforço para compreender suas necessidades, seus medos, seu afeto e auxiliá-lo a desenvolver as ferramentas necessárias para superar seus obstáculos afinal, que adultos quero para o futuro da humanidade? Um potente questionador de sua realidade ou um sujeito incapaz do exercício da autonomia psicológica?

Creio que é recebendo compreensão, respeito e valorização de seu potencial que a crianças podem enfrentar seus problemas cotidianos e construir o alicerce de sua identidade e participar da construção da história e cultura de seu tempo.

 

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