Primeiro vou desmistificar a depressão. Um adolescente deprimido é diferente de um adulto deprimido! Os sintomas e o funcionamento de sua cabeça são diferentes.

Não vou falar aqui dos sintomas clássicos da depressão, eles podem não estar presentes! O comportamento do adolescente tem sua forma específica para revelar que possa estar precisando de ajuda, e rápido!

Uma das características da adolescência é que estes jovens estão passando por um processo de “desprendimento”. É sem dúvida um momento chave e também crítico na formação da identidade.

O adolescente está mudando sua forma de pensar, já não pensa mais como uma criança. Essa mudança não é apenas reflexo das que ocorrem em seu corpo, mas também pela ampliação do espaço e ambientes que frequenta, coisas que foram adquiridas com a soma das velas de aniversário que soprou, ele passou a receber estímulos que até então eram desconhecidos quando era criança.

Na adolescência além dos sintomas clássicos da depressão o adoecimento aparece camuflado através de inquietação, rebeldia, preocupações somáticas, fugas, condutas antissociais ou impulsividade.

Esquisito? Isso não tem nada a ver com tristeza, isolamento, perda de apetite?

Pois é… Isto é reflexo da representação que eles fazem do ambiente em que vivem.

A maneira como pensa e interpreta o cotidiano forma um conjunto de imagens e referências que podemos chamar de representação e esta por sua vez é a ferramenta que ele utiliza para interpretar e dar sentido à sua vida.

Mas de que forma os adolescentes organizam suas representações quando estão deprimidos?

As representações são construídas nas interações sociais e utilizam funções psíquicas tais como as cognitivas e afetivas.

Em sua mente as memórias e conceitos construídos e adquiridos na infância foram colocados em dúvida, isto é necessário para que possa construir sua identidade, porém seu esforço para essa construção é a todo o momento colocado em xeque-mate, o que lhe causa frustração e desamparo.

Diante desta encruzilhada da vida ele tem que tomar ações para seguir o fluxo natural de seu desenvolvimento que é a construção de sua identidade, portanto tem que decidir quais ações tomar:

  • Defesa (impulsivas, agressivas, associação a grupos marginalizados)
  • Fortalecimento (álcool e drogas)
  • Autodestruição – em consequência  baixa autoestima (anorexia, isolamento, fuga, suicídio)

Durante seu desenvolvimento, o adolescente tem variações entre as fantasias infantis e as fantasias do mundo adulto. Essas variações gera um mal estar, principalmente pelas exigências e pressões do mundo externo, afinal não é mais criança e muito menos um adulto, é uma fase de identidade difusa, afinal como podemos definir a identidade do adolescente? Imaturo? Em transformação? Em crise? Como é difícil encontrar adjetivos positivos para o adolescente!

Uma personalidade invadida.

Provavelmente essa seja uma definição cabível para o estado da adolescência, e o comportamento do adolescente frequentemente denuncia essa angústia, muitas vezes seus comportamentos confusos e inconsequentes, nada mais são do que mecanismos para amenizar o medo.

Nesse sentido o adolescente pode se lançar a experiências pouco saudáveis como recursos utilizados para “tampar” o vazio de uma personalidade invadida ou “estancar” o sofrimento pela perda da infância pressionada por uma indefinição da vida adulta.

Em todas as fases de nossa vida a presença de relacionamentos afetivos fortes é de inestimável importância e valor, na adolescência não é diferente. Apesar de ser uma fase em que esteja definindo sua identidade e para que isso ocorra necessitou abandonar temporariamente algumas características que absorveu de maneira quase simbiótica de seus pais,  a necessidade de amor e a busca do contato é uma característica iminente do adolescente.

Para alguns essa condição leva ao sentimento de autodesvalorização, gerando baixa autoestima. Cabe a nós, pais, professores, familiares, psicólogos, médicos, enfermeiros e a todos que  convivem com adolescentes estar atentos a essa situação de risco, ou ajudar aqueles que necessitam resgatar os caminhos para a construção de sua identidade.

 

 

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