Em 2004 em foi detectado pela Drinking Water Inspectorate (DWI) resíduos de Prozac diluídos em redes de esgoto de Londres. Na época o assunto foi cercado pela polêmica causada pelo grande aumento do número de receitas de antidepressivos.

Trabalhando há vinte anos em saúde mental não tenho dúvidas de como os medicamentos são úteis, é uma ferramenta que ajuda as pessoas em várias situações. Foi a evolução das medicações que tornou possível o início da reforma psiquiátrica e garantiu a reinserção social de milhares de pessoas. As medicações são recursos úteis e válidos, desde que sejam utilizadas no momento apropriado!

O que me atormenta é a procura de medicamentos (ou outros recursos paliativos) para aliviar males e angústias que são normais da nossa vida. A sensação de vazio, a tristeza, a angústia são reações normais…, acometem pessoas normais. A busca inconsequente por medicações ou qualquer outro recurso para lidar com elas pode não ser saudável.

Freud fala de elementos constituintes da personalidade normal, disse que a tristeza, a angústia e outros fenômenos psíquicos são da natureza humana. Mas hoje, tenho a impressão de que  há algo potencializando algumas características de nossa personalidade e que está tornando a nossa vida insuportável.

A depressão está disseminada tal como uma epidemia!

Observe as afirmações abaixo:

  • Cada um é responsável pelos seus desejos
  • Cada um deve lutar para atingir seus próprios objetivos
  • Cada um só pode contar consigo mesmo
  • Cada um deve desenvolver seu autocontrole.
  • Cada um deve desenvolver sua capacidade de autossuficiência.

Essas afirmações presentes em nossa cultura são conhecidas de todos. É fruto de uma ideologia que chamamos de neoliberal e desde criança somos influenciados por ela e ainda influenciamos nossos filhos.

Muitas pessoas não conseguem atingir as metas estabelecidas por essa ideologia, a consequência é que se sentem pressionadas, incapazes, excluídas e até desajustada. Outras por sua vez vestem o uniforme de Super-Homem passa por tudo e todos com força e determinação, resolvendo tudo sozinho.

Barão de Munchhausen foi famoso em sua época a ponto de ter os relatos de suas aventuras publicadas na célebre série As Aventuras do Barão de Münchhausen, e publicadas em 1785. Em síntese, a perspectiva do Barão é a de que todos são responsáveis pelo seu sucesso ou fracasso, devendo arcar com a consequência de seus atos “sozinho”, como se não sofrêssemos influência de aspectos históricos ou econômicos.

É tolice tentar sair de uma situação difícil sem a ajuda de alguém!

Somos uma espécie frágil que sofre pela possibilidade do desamparo. Quando nos vinculamos com outras pessoas podemos suportar nossas angustias e a dar sentido à vida. Precisamos reconhecer a nós mesmos através do olhar do outro, a vida em sociedade deve ser feita através de trocas afetivas, isso é uma questão de sobrevivência.

Quanto mais tentamos viver sem a necessidade do outro, mais nos transformamos em um ser que se basta, mais sofremos a consequência da fragilização das relações sociais, que passam a ser superficiais, com laços tênues. Não digo que devemos depender dos outros para vivermos bem, mas que é fundamental compartilharmos nossa vida, nossos afetos, nossos sentimentos. Uma relação de dependência é arriscada tanto como uma de isolamento.

A interação com as pessoas perde o sentido quando a pessoa se acha o Super-Homem.

Como Super-Homem não existe, sobram órfãos, sofrendo de vazio existencial.

A banalização do diagnóstico da depressão e a medicalização do nosso cotidiano passam pela ideologia do neoliberalismo, que individualiza o sofrimento que é reflexo da pressão do coletivo, e atribui a solução a uma caixa de remédio que se compra em um balcão de farmácia.

Vivemos um desamparo contemporâneo que as medicações antidepressivas sozinhas não conseguirão remediar. O remédio será a qualidade de nossas relações interpessoais e o sentido que damos a elas.

 

Por Júlio Bernabé

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